A síndrome do jogo favorito tem cura?

Em qualquer comunidade de estudantes e desenvolvedores de jogos, é incrível o número de pessoas que desejam criar um MMOG (massive multiplayer Online Game) como sendo seu primeiro jogo. Parece um ímã, uma atração inevitável: a pessoa é iniciante, portanto tem que escolher logo o que há de mais complexo!

Na verdade, isso é bastante natural, tendo-se em vista o fato de que MMOG é o tipo de jogo que agrada um grande número de pessoas hoje. Antes da popularização dos MMOGs, eram os FPS (first person shooters) os jogos considerados de maior sucesso, tanto dentre as escolhas dos iniciantes, quanto dentre os jogadores, seguidos de RTS (real time strategy) e tantas outras siglas, formando uma grande sopa de letrinhas.

A escolha por tais gêneros é movida pelos seguintes argumentos:

  • Trata-se do gênero favorito da pessoa como jogadora e todos sempre ouvem que trabalhar naquilo que se gosta é uma das melhores formas de ser realmente produtivo;
  • Não se sabe ainda a real complexidade que há em cada gênero ainda, então se torna difícil saber o quão complexo será o desenvolvimento;
  • Há também uma certa superestimação acerca de nossas capacidades: em nossos primeiros passos, estamos tão certos de que somos capazes de qualquer coisa, que para nós poderíamos construir o Cristo Redentor usando somente um gigantesco bloco de pedra e uma lixa de unhas!

Entretanto, vale salientar que “grandes fracassos levam a grandes frustrações, mas pequenos sucessos trazem uma grande motivação”. Em outras palavras: é preferível começar-se por um projeto muito mais simples e ir gradualmente avançando a começar por um MMOG, tropeçar e não conseguir levantar-se mais.

Lembro-me de ter feito, em meus primeiros passos, vários demos de jogos diferentes: um “pacman” sem fantasmas a perseguir o jogador, um mini-jogo de corrida, alguns space invaders, etc.

Posteriormente, tudo evoluiu, defini mais claramente a plataforma em que desenvolvo até hoje (a plataforma Flash) e comecei a criar jogos mais sofisticados (que agora sim passei a chamar de jogos!), como jogos de nave no estilo R-Type, jogos de corrida com visão top down, jogos de cartas, etc.

Bem, aonde estou hoje? Meus últimos projetos foram vários tipos de jogos de tabuleiro, jogos multiplayer como Buraco, Damas, Botão e Texas Hold’em Poker e o meu último projeto já se encaixa melhor na definição de MMOG, uma vez que se trata de um mundo persistente onde jovens podem construir seu avatar e interagir com outros usuários, seja por meio de jogos, seja por meio de atividades sociais.

Quanto tempo levou para ir “de uma ponta a outra”? Cerca de 12 anos, num processo bastante gradual que, apesar de aparentemente lento, para mim foi mais do que satisfatório – motivo pelo qual sempre recomendo fazer o mesmo, “devagar e sempre”.

E se você deseja fazer a mesma coisa, há algumas poucas coisas que podem ser feitas para acelerar um pouco o processo de aprendizado:

  • Comece pelo mais simples e aumente a dificuldade aos poucos! Você descobrirá que aquele snake game que você achava tão bobo enquanto jogador não é tão fácil assim de criar, no fim das contas, e aprenderá muito com isso;
  • Um bom livro vale mais que 1000 artigos de uma página ou duas! Se você puder adquirir um livro que guia passo a passo como desenvolver um determinado tipo de jogo que esteja tentando fazer agora, esta pode ser uma excelente ideia, pois você aprenderá muito mais por meio da leitura de um livro, que já está organizado para seu aprendizado, do que procurando artigos dispersos na Internet a fim de montar o conhecimento como se fosse um quebra-cabeças;
  • Não baixe livros, compre livros! Tenho percebido que quanto mais livros baixamos, menos lemos! Em contrapartida, um livro comprado em algum momento será lido, tendo em vista o fato de que gastamos dinheiro no mesmo e não queremos “perder aquele dinheiro”, além disso, a leitura de um livro impresso é muito melhor do que a leitura de um livro em um computador;
  • Participação em cursos também pode ser interessante! Cursos possuem uma atuação até mesmo mais direta que o livro, uma vez que passamos a ter um instrutor a nos orientar, a acompanhar os nossos passos;
  • Termine tudo o que você começa! Se você começou a fazer uma clone do Mario e começou a ter muitas dificuldades, continue, desistir somente não é a melhor ideia. Jogos não terminados não contam a seu favor!

A ideia é essa, amigo leitor, e lembre-se: fuja da síndrome do jogo favorito. Apesar de parecer legal em uma primeira instância, você perceberá que algo bem mais gradual o levará realmente a seu objetivo. Pular etapas raramente vale a pena…

Hmmmm… E você, amigo leitor, está com a síndrome do jogo favorito? Deixe-me examiná-lo: abra a boca e diga “ah!”. 🙂

 

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